A maior desesperança plantada em espera
num ponto de ônibus da Rio-Santos.
O choro de um pássaro me morre na boca
da alma que míngua em paradas esparsas
e a tarde passa em posição fetal no km 52.
Você dirigia serpenteando a serra
enquanto meus assuntos eram descartados nas curvas do acostamento
lambendo fachadas de mercado com caligrafias sujas,
produtos de marcas desconhecidas,
igrejas universais sem reboco,
casas de ripas farpadas e as pessoas que morrem nelas,
papa de areia e água nos vãos dos piso cerâmico da sala,
sebo de sal por louças e talheres,
água empoçada e botecos improvisados
tão mais tristes quanto menos conheço.
Lá de onde chega aqui a nascente das náuseas,
as tentativas que morrem na praia,
a boca que não encontra o beijo
para onde vai o amor despido da roupa de cama
já naquele dia você quase me perdia na mesa do almoço
porque precisa saber que não vou ficar no seu quarto como
se fica num ponto de ônibus da Rio-Santos
se o amor míngua em palavras esparsas
e a areia se perde nas ondulações do colchão de espuma.
Eu escrevo porque o atento considera as placas de desvio
e as desilusões que transitam na estrada.

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as coisas que diz o mar ao cachorro
as coisas que diz o mar de dentro do cachorro
saber desse andarilho ofegante de rotas desmaterializadas
que seu passo é sua fome
os mares de dentro de cada um de nós na cama
os pensamentos editados em palavras filtradas
pelo tule que desaba do teto
e nos mantém em espera por nada
que traga muita realidade ou
que seja mais sério do que concentrar-se
nos limites borrados das nossas peles
as coisas que diz o ar quente aos ouvidos
as coisas que diz o ar quente de dentro de nossas caixas torácicas
a densidade de dois viajantes de peito cansado
esse quarto silencia nossas fomes
tão diferentes.

Espuma

Todas as gotículas suspensas
dançando uma valsa de teto
a convite do ventilador
o quarto ofegante declara
respirações trocadas
durante a noite
maresia e suor
diluindo lençóis,
fronhas e toalhas de banho
o vento parado no lustre,
uma destilaria de lembranças
do último beijo às 2h da manhã.

Ele me esquece na primeira onda do mar em ressaca.

Restaram suas iniciais
borradas no papel do bilhete
com letras úmidas, torneadas
e sem telefone no final.

Não há fila indiana no campo de Yarmouk.
Há palestinos distribuídos em forma de maré cheia
entre os escombros monocromáticos
de valor monetário para fotos da National Geographic.

Refugiados intoxicados pelo Daesh:
desorganizem-se diante da voluntária
do grupo de ajuda humanitária
que distribui ração e pó.
Obrigada volte sempre.

Sírios da Champs Elysées de Al Zaatari:
sorriam para a foto do Caderno Internacional.
O anúncio da Colgate antecede o vídeo de seu azar no UOL.

Cada congolês do quase sexagenário Nakivale,
Uganda inchada do dia 20 de junho,
você é uma entre as 113 pessoas no mundo
cruzando fronteiras demarcadas em mesas de mogno escuro.

E se eu disser que essa sua lona
não cobre a suposta vergonha
do Alto Comissariado das Nações Unidas?
Ungidas sejam aquelas cabeças com óleo de fritura.

Expatriados acumuladores de chão,
visitem unidade decorada na Faria Lima,
fácil acesso para a marginal.

Perseguidos pela frente al-Nusra,
pelos radicais de Al Shabab,
sobreviventes de Boko Haram:
são 128 m2 de área privativa
com piscina, quadra poliesportiva
e lindo mobiliário 3D no anúncio.

Não há bonecos de índios deitados
no redário da maquete do edifício.
Desterrados de Belo Monte:
Há churrasqueiras ardendo em vão, sabiam?
Boas pra queimar economistas.

Acampados de Dadaab e Kakuna:
condições de financiamento facilitadas
para quem for expulso do campo desativado no Quênia.
Segurança 24 horas no Caderno Cotidiano.

Ex-cidadãos de Aleppo e Mossul
que não falam sobre isso,
que não querem ouvir sobre isso,
mas sabem que cova infantil ocupa pouco espaço.

Todos os sem pátria, os sem teto,
os exilados, os expulsos, os desterrados,
os emigrados, os foragidos, interditados,
os desalojados, desabrigados, desprotegidos,
os refugos, os apartados, segregados,
os periféricos, os vulneráveis, os acampados, deportados:

venham todos visitar nosso stand!
Mas só hoje.
Amanhã seus naufrágios vão embrulhar
peixes vendidos nas feiras de rua.

Venham a São Paulo.
A ponte estaiada tem altura
ideal para suicídios de morte no asfalto
transmitidas ao vivo no noticiário global.

Não visitem a capital. Vivam a capital.
Morram todo dia entre as passarelas e o piche quente.
Ressuscitem aos fins de semana na capital.

Observem-me
sugada pra dentro do sofá
pelos trilhos intumescidos.
Experimentem meus torcicolos, escaras,
dores nas têmporas e nódulos.
Sou umazinha que nunca teve falta de teto e fome.

Quando me encontrarem, cuspam na minha cara.
Enquanto alguém explode, me preocupo com os postes e fios de alta tensão que me atravessam
eletrocutando os pensamentos pornográficos
na companhia de aspiradores de pó,
máquinas de lavar roupa em trânsito,
cabos e espanadores esquecidos.

Desde quando não fui retirante e
a cabeça atrofiada.
Desde que nasci sedentária,
conto muros pichados, blogs de arte e decoração,
assinatura de flores brancas, balas de menta no banco do passageiro,
camisetas cropped e aplicativos de indignação para mobile phone.

Um ser mais ou menos senciente e tão útil
quanto especulações sobre vida extraterrestre
e dimensões universais.
Me dê sua morte e eu escrevo um poema
daqui do edredom antialérgico
e depois me arrasto insignificante
pelo tapete, livros, mesa, cômoda,
espalhando o sebo do corpo.

Nota de rodapé: sou uma filha da puta com tempo e caneta nas mãos.

Crânio adequado para experimento estético,
estatelado respingando sangue e massa encefálica
pela cabeceira da cama.
Compre esse móvel com apenas um clique.
Cheiro de coisa apodrecida sai pelas narinas.
Presa no lençol.
Composta por detrito orgânico, chorume, descarte hospitalar, lixo tóxico e água de curtume.
Meus pensamentos escorrem como ácido sulfúrico e enxofre.
Sinto cheiro de desinfetante barato e gosto de refluxo.
Estive em viagem pelo Caderno de Entretenimento.

Mas já voltei. Já esqueci tudo.

Saí para fazer compras.
Sujei a roupa com o peixe da feira
tragediazinha doméstica particular
O jornal de ontem virou embrulho do souvenir.
Amarrei com fita de cetim.
Toma aqui um presente. Não precisa agradecer.
É que estive no inferno e lembrei de você.

Minha resposta foi
uns sacos plásticos sem uso
na gaveta da cômoda
para qualquer emergência
às 4h48 da manhã,
quando perguntaram
o que me conforta nesse mundo.
Uma caminhada a pé
no trem fantasma é a analogia
que me passa na cabeça
se você estiver disposto
a perguntar, dentro desse breu,
como a vida me recebeu até aqui.
Piso com borracha, medo e cuidado
como se cada passo
pudesse se abrir em cadafalso,
tão diferente daquele homem
que anda na avenida
como se estivesse na sala de casa.
Dorme ali na barraca armada
em praça pública,
esfregando na cara
desses que têm pés frágeis
forjados na pretensa segurança
de sua clausura:
“A porta da rua é a minha casa,
é aqui que se amanhece
antes mesmo da alvorada.
Não pise no meu tapete de grama.”
A cozinha, a louça, a cama
coberta com a bandeira da campanha
do candidato à prefeitura
que vai lhe dizer
“Essa praça não é sua.”
O corpo dele é a própria viga,
marcha com tanta firmeza e desenvoltura
no cruzamento, sob a luz da viatura,
que me causa admiração e cobiça.
Faixas de pedestres são seus tacos
gastos pelo uso,
a sarjeta, seu rodapé bicolor,
claro e escuro.
Um corredor largo de asfalto
liga a sala ao banheiro principal
e na mesma direção, os fios do varal
um pouco alto demais,
entre fios de alta tensão.
As solas dos pés estão nuas
assim como quem anda à vontade
aquele no concreto vertical armado
altíssima vossa propriedade
circundada pela cerca elétrica
amestrador de usura.
Mas não ele, esse homem
que me causa inveja,
de músculo livre,
pernas soltas, passo íntegro
um legítimo posseiro da vida
por teimosia e usucapião pro misero.
Seus dedos abraçam o chão,
o piche e a luz do farol.
Na lixeira escolhe o que convém
entre caixas da Nestlé, Unilever
e embalagens plásticas Braskem.
Se por acaso, num gesto despreocupado,
coçar a barriga,
com certeza é do tipo que
deitaria de pernas cruzadas
nas pedras portuguesas
do centro ou debaixo da placa
de número cinquenta,
a velocidade com que as visitas
passam por sua janela mal enquadrada.
Passando pela entrada do IML,
a funcionária pública
sentiu um vento frio na espinha
quando o saco de lixo preto
acumulado na esquina
se contorceu e tossiu.
Só assim pra perceber
que só pisa leve e determinado
nas ruas da cidade
quem se fode por inteiro.
A intimidade e o descanso
de quem não tem medo
porque pegou o medo pra ser
E eu, que tenho todas essas paredes,
tenho a máquina do abraço de madeira,
o banho, a geladeira,
consigo cheirar
a vida que talha aqui dentro
em desuso e lamento.
Penso torto e sinto muito mal,
foi assim que desisti de existir
há muitos anos porque
piso como um animal indefeso,
na ponta dos dedos,
antecipando o susto de brincadeira no trem
que pra mim sempre foi tão real.
São dores e cãibras desde o parto,
me lembro por causa
dessa memória mal selecionada
e da sensibilidade de alma escalpelada.
Abri a mão e deixei despencar
a vida que me falta,
e agora minha vingança crua
é viver, mesmo na ausência,
subindo essa escada escura.
Se acontecer d’eu ter um dia bom,
se me virem sorrindo,
é minha faca entrando
no bucho dela mais um pouquinho.
Não vai ter corte limpo,
nem lâmina afiada.
Não vai ter precisão cirúrgica,
mas tem, sim, dilaceração,
amputação à marra na dentada.
Porque é assim que ela te come,
em nacos de carne dura ou mole,
lambendo a boca ensanguentada.
Do canto do lábio vaza coágulo
preto, denso, gelatinoso,
sorvido de veias ricas, irrigadas.
É massacre, assim, que eu devolvo
em resposta à dor que me foi causada.
Tudo em homenagem deliberada
aos urubus de estimação
que fazem de poleiro os postes
em marginais engarrafadas.
Aos que foram obrigados a criar cascos
para pisar em pregos na calçada.
Dedico esses escalpos
às pessoas que permanecem
descalças em pistas interditadas.
Te apresento a minha lança, enferrujada.
Ajuste justo de contas,
pagamento na mesma moeda,
no mesmo susto, na mesma arma.
Ofereço a outra face mas cobro caro
pela feição escarificada
pela cauterização do meu útero
exalando cheiro de carne queimada.
Esses são meus juros, a indenização
por essa dor que me foi endereçada,
veja bem, conheço bem
vida bruta é corte sujo
de ponta cega e lâmina serrilhada.

Plexo poético

A mais famosa poeta
nasceu com um dicionário na barriga
e hoje derrama sangue no deserto
desenhando profecias.

Leões e leoas portando kalashnikovs made in Russia.
A moda são cintos explosivos
e posso imaginar hímens estilhaçados de boas-vindas
por onde vazam letras árabes suicidas.

A mais famosa poeta
usa festim carregado com métricas contidas
que provocam estrondos em Aleppo
durante festas de casamento ou ao meio-dia.

Em outras cidades sírias
o oriente a meio mastro
flamula um niqab preto
de fantasma vivo no mercado.
Outros vários véus atravessando ruas
ou usando armas
se transformam em sudários precoces
que brilharão sobre corpos e alcunhas.
(onde estará Um Ali?)

Na Bósnia, Kosovo, Chechênia ou Afeganistão,
radicais sunitas apadrinham guerras santas.
Na falta de água, lavam rosto e braço com areia
em abluções sequenciais.
Areia jorra de suas bocas, narizes e orelhas
marcando o tempo perdido desde o ano 632.

Em pátrias seculares,
os mujahideen recrutam jovens mortiços
sem visto ou passaporte
turistas do califado.

“Levantem e peguem seus rifles
na tundra, caatinga, pântano, na mata tropical.
Escrevam versos principalmente
na massa encefálica do exército kafir.”

É haram assoprar o chá.
A sharia provavelmente não permite
ursos de pelúcia com cabeça
e com certeza não permite que se veja
mãos femininas desfilando na calçada.

Às mulheres cabe desposar,
escarranchar em casa
– inclusive as recém-convertidas,
se forem francesas, melhor ainda –
e eventualmente apanhar de machos obsedantes com tornozelos nus.

Maomé, de barba ensopada de sangue,
apedrejou esposas rebeldes,
casou com Aisha, de seis anos
e consumou a pilhagem aos nove. Ou antes?

A mais famosa poeta
nasceu Ahlam al-Nasr
com um sonho de triunfo na escrita
mulher de elegia marcial
a voz da revolução mortífera
muitos likes no youtube
lioness rainha de Raqqa
doma sua espada felina lábia
rima o estupro de Aisha
joga pó nas redes sociais
pure life no Daesh
usa um facebook de decapitados
quer derrubar fronteiras ocidentais
furar a casca Estado-nação
sua poesia
meticulosa denotação cantada por jihadistas de pais mortos por franceses, russos, americanos e ingleses
melopeia guarnecida
proselitismo viral
bin Laden poeta requintado
poesias no deserto minado jorram como areia da boca
recita, mata
poesia
beheading em praça pública
poesia
Abd Allah
fuzis onomatopaicos
poesia
salat cinco vezes ao dia
poesia
o que puxa o gatilho —> poesia
a poesia não deserta
não comete apostasia
a poesia vai exterminar a vida na Terra
I take my rifle, ela diz.

A primeira gota
mostra o caminho
outras seguem o rastro
quentes e grossas
perdem massa correndo o rosto
até mergulharem no lençol.
Ouçam como chove
lá fora dentro
da minha boca
escorre aquela água
minada nas paredes
fibrosas como carne
seca ao sol.
Esse quarto já testemunhou
milhares das minhas
noites inundadas
pendurada no meio fio
no meio do nada
atada à vida
em risco, mal e mal.
Hoje reencontrei no sótão
guardado o que me
havia sido drenado
pelas receitas médicas
absorventes.
Apesar de vocês
não esqueci nem limpei
o limo que reveste
minha coluna vertebral
e se alastra pelas
costelas e ossos dos membros
guardando órgãos vitais
encharcados.
Não espero
que me entendam
saibam apenas
que vocês assassinam
pessoas e poemas
todos os dias
das cadeiras dos consultórios
com armas brancas
furando tímpanos.
Pó impermeabilizante
espessantes antiumidificantes
salpicados
dentro do crânio
enquanto agradeço
docemente a secagem
das minhas únicas
saídas varicosas
ainda que sirvam apenas
para gotejar no ralo.
Aterrem a nascente viscosa
da minha libido
façam a punção do
pântano pulverizem
com cal
até que tudo fique
tão leve tão fino
e um sopro de vento
bem no meio dos meus olhos
forme crostas na retina
pra que eu não veja mais.
Joguem outras pás
de areia plantem
cápsulas antimofo
passem o rolo compressor
assistam satisfeitos
meu caminhar firme
em linha plana
usando as placas de desvio
que vocês monitoram
para direcionar a horda
de pessoas que dormem
comem trabalham
e respiram se for o caso.
Dispensem os cabos
não ofereço perigo ou resistência
apenas meu sorriso adestrado.
Já sofri tantas intervenções, senhoras,
camadas e camadas de asfalto.
Assim depressa
quando brotar aquela
fina língua de água do rio
que na história virou laje
ou da ponta mais alta
no centro da minha cabeça
não demorem.
Fechem tampem concretem
depois se quiserem
cuspam dá na mesma
meus poros estarão
fechados e inacessíveis.
Por fim, quando já tiverem
me arrancado meneios suficientes
para certificação burocrática
com carimbo metodológico
liberem o fluxo
abram alta desbloqueiem
a pista.
Me devolvam às ruas
sem risco de capotamento
mesmo em alta velocidade.
Não se enganem porém
olhem bem acima adiante
estão vendo o céu?
Não há estiagem
que dure pra sempre
eu voltarei como vocês não
viram antes.
Daquela rocha no monte
que hoje pertence a território checheno
onde eu e Prometeu tivemos o fígado
picado engolido por aves durante
dias a fio.
De lá do alto com órgãos rasgados
rosto irreconhecível pele dilacerada
eu descerei carregada nos braços
das 432 mortes que me mantêm
mais viva do que nunca.
Sou eu, o arquivo perdido no seu desktop.